sexta-feira, 18 de abril de 2008

MITO: A PSEUDO-PRIMITIVIDADE



“Mito é apenas uma fantasia que os antigos tinham por não conhecerem a ciência! Quando ela fora descoberta os mitos foram desmascarados e deixados de lado!”, eis um pensamento positivista e mítico, um tanto equivocado, quanto ao mito que é a resposta ao perguntar a uma pessoa leiga no assunto sobre o que seria o mito em definição. Todavia o mito é mais que isso! É exatamente a ferramenta que faz com que possamos nos diferenciar dos animais irracionais. A diferença entre um homem e uma abelha é que o primeiro raciocina e é capaz de trabalhar a natureza fora de seu ciclo comum e forjar subjetividades individuais e coletivas.
Primeiramente debatamos sobre o que diferencia o homem dos demais animais quanto ao mito. O homem tem certas habilidades desenvolvidas que passa sobre as dos animais. Um cachorro, um pássaro ou mesmo um babuíno é um ser que possui o que chamamos de instinto, que é como um reflexo comum entre esses animais quanto aos movimentos do mundo para tentativa de sobrevivência, mas nunca deixando de entrar no grande ciclo biológico de nascer, crescer, procriar e, enfim, servir de alimento a um outro animal ou a uma planta como adubo. Instinto seria esse movimento inicial que dá ao ser um ar no grande ciclo natural. O homem possui o instinto também, porém mais que isso. Ele possui a razão que permite pensar fora do que esse ciclo condiciona e assim poder trabalhar, que é alterar a natureza fora de seu rumo cíclico natural, geralmente para prazer próprio (sentir sede é natural, saciar-se nesse ciclo do mundo todos os animais fazem com água natural, como a de um rio, mas com o trabalho o homem desenvolve o conforto, a escolha: “Quer beber algo? Água com gás ou sem gás? Ah, refrigerante?”); ele possui também algo que anda lado a lado com a razão, o meio de fuga ou de completude com o mundo, a capacidade de imaginação! Com ela, ele usa de sua criatividade dando idéias subjetivas a coisas e idealizações ou transpassa para textos, e demais artes em geral, suas angustias para fugir ou se completar com o mundo em que se encontra. Lembrando que ao falarmos de mundo é algo a mais, não apenas o espaço em si, mas seu funcionamento natural, mecânico e simbólico. Os animais talvez compreendam a vida pelo instinto, mas somos capazes de estudá-la pela razão e criar um sistema, um mundo, com a subjetividade e o mito. Olhando de um ponto distante e seguro ou apenas positivo, como o olhar cientifico de Comte, o mito em si parece algo desnecessário, primitivo e decadente ante a razão, mas assim como ela, a subjetividade é essencial ao homem para torná-lo um ser racional que se compreende dentro de um mundo.
A própria ciência produz mitos, como o mito de ela ser capaz de elevar o homem a nível de divindade e controlar o multiverso ao compreendê-lo, ou o mito de sempre estar certa ante qualquer situação. Mas olhando frivolamente, como um persa, que tinha vários deuses, visando nossa sociedade cientifica, a ciência pode ser considerada inútil, não explicando tudo e não dando pleno suporte emocional. Um asteca tinha certeza que o sacrifício humano a seu Deus era o que fazia o sol não devorar a terra, e um canibal tinha certeza plena que ao devorar o rival ganharia todos os poderes dele. O que quero dizer com isso? É que apartir da convicção de cada um, entre razão e mito não há apenas um deles que seja uma verdade plena que prevaleça sobre a outra ou um que seja uma explicação falsa. Talvez se pode aceitar a idéia de uma verdade lógica e empírica (a ciência em si) e uma verdade intuída (o mito). Afinal, os dois têm o mesmo fundamento e finalidade: a busca de compreender e situar o homem no mundo, assim diferenciando dos animais puramente instintivos. Essas duas verdades têm como fim, por exemplo, a busca da cura (remédios VS fé), a explicação da criação (evolução VS criação dos Deuses) e até mesmo a explicação da natureza (física e biologia VS rituais e vontades do sagrado).
O mito, inclusive, é um apoio emocional. O homem não é um simples “ser pensante”, ele também é um “ser sensível” capaz de sentir o mundo em que se encontra e criar disso conceitos, coisas como o medo do desconhecido e o desejo pelo conhecido, e vice versa. Quando se viu ante ao mundo sem a razão, ele usou do mito, a verdade intuída, aonde deuses e espíritos são respeitados ou reverenciados em troca de um apoio apaziguador entre o ser humano e a natureza. A função do mito não é, então, primordialmente, explicar a realidade, mas acomodar e tranqüilizar o homem em um mundo “assustador”, desconhecido, imprevisível e megalomaniacamente onipotente.
O pensamento mítico tem, também, o poder de criar o mundo do individuo e assim a cultura e a manipulação social. “Mundo” aqui não é o sinônimo de planeta, mas sim de realidade, e levando assim o mundo mítico terá duas vertentes: o mundo mítico coletivo, o Imposto, e o mundo mítico individual, o Sensível. O mundo Imposto é aquele forjado por uma ou várias pessoas no tempo antes da criança nascer. Esta será incluída a esse mundo aonde, como ser humano normal, irá aderir em sua mente e idéias a aceitação dos mitos, os montará como um mundo e assim surgirá o momento da parte do mundo sensível dela. Esse mundo irá organizar uma sociedade de pessoas, que acreditarão em um mesmo ideal, objetivo e mito que os tranqüiliza perante o mundo. Será o criador de uma coletividade com um ideal, os próprios positivistas compõem a sociedade positiva que acreditam no mito do Cientista como protótipo de Deus, mas para tal deveria renegar todos os mitos e prová-los como verdadeiros ou não (olha que contradição, o mito da inexistência do mito), logo é uma sociedade que luta por um ideal, um objetivo, um mito. Os calvinistas são pessoas em torno de uma sociedade religiosa que têm como mito o dogma que o sacrifício é o único meio de Deus (logo acreditam no mito de sua existência, como católicos, judeus e islâmicos) perdoar o homem pecador e assim dar-lhe uma pós-vida de maravilhas equivalentes a seu trabalho suado. Como último exemplo do imposto, vou falar de um mito que tem um poder maior que o de uma unificação de individualidades em uma coletividade, o poder de manipular essa coletividade e ainda, apartir de mitos nossos, serem considerados discriminadores e hediondos, capaz de destruir uma outra cultura de mitos (algo comum de ocorrer quando culturas de mitos entram em choque, como os dos israelitas e árabes), é o mito do arianismo. Adolf Hitler usou o mito da raça ariana para mobilizar toda a sociedade e nação alemã em prol de seus objetivos pessoais.
O mundo sensível, por outro lado, é o que é formado no interior de cada individuo através de sua trajetória que vai do nascer ao morrer. Através de si mesmo o ser humano vai perceber o mundo à sua maneira e buscar seus próprios mitos quanto ao mundo que lhe foi Imposto pela sociedade em que nasceu, e quando o mundo sensível cria objetivos, conceitos e entendimentos divergentes do que a sociedade formou, vem a revolução. Primeiro a revolução é interior, e dependendo da vontade pessoal ou da mobilização de uma sociedade nova em prol desse mito revolucionário, o mito pré-definido é derrubado e esse novo se torna o novo ideal que unirá a coletividade e poderá ser derrubado por um presumível mito revolucionário futuro.
O próximo objetivo do mito que será explanado é como regulador social. Durante muitos anos perdurou o mito da vida, morte, amor, erotismo, sexualidade, amizade, da pureza do corpo, da violência, dentre outros conceitos. Através de mitos, que para a ciência positiva é considerado algo fútil, desnecessário e irreal, a sociedade conseguiu evitar situações que em seu mito coletivo são consideradas coisas abomináveis, mas essa desenfreada ciência que é capaz de desmascarar o mito em si tem revelado quão danosa tem sido. Quando criança você ouve mitos que lhe são passados inocentemente, mas que deixam uma mensagem em seu ser. Você aprende com chapeuzinho vermelho o exemplo de como neste mundo existe gente má que engana para seu próprio proveito, e que os pais de verdade sempre dão o caminho mais seguro, mesmo que mais longo, para seu objetivo; Na branca de neve você percebe que não deve confiar em estranhos, por mais que pareçam inofensivos; A Bela e a Fera mostra como as aparências enganam, e as pessoas são capazes de fantasiar umas sobre as outras criando pré-conceitos infundados; Aladim e a lâmpada Maravilhosa mostra tanto como a cobiça exagerada pode levar o homem a sua derrota própria, quanto como nem tudo que se deseja será realmente bom, pois pode ter conseqüências desagradáveis; e Cinderela mostra que mesmo que a criança seja pobre, lutando com humildade é capaz de se tornar uma pessoa melhor que muitas que nasceram ricas e sem humildade. São mitos, fabulas e lendas que dão a uma criança, a um ser humano, esperança, conhecimento sobre o mundo envolta e força de vontade para criar objetivos, um meio de passar à futura coletividade mitos impostos para que sigam sempre o ideal ali mostrado. Assim as crianças crescem já preparadas de inicio para um mundo feio, triste e medonhamente desconhecido. É como uma espécie de manipulação moral.
Quando veio a ciência da verdade lógica e empírica, a fantasia e mito foram derrubados explanando cientificamente sobre a morte, amor, vida etc. Foi como retirar o véu que cobria a cara deformada e feia da vida e, em seguida, se acostumar com ela como se fizesse parte da rotina. Primeiro vem o sagrado, o proibido, em segundo a revolução cientifica que choca com a revelação, por fim sobra o costume, a frívola irrelevância à situação. Se antes uma pessoa qualquer morresse assassinada, faria uma cidade inteira parar assombrada com a situação, hoje é a coisa mais normal do mundo ligar a televisão, ver quantos milhares morreram no jornal das noticias do dia e esperar o filme de terror iniciar, aonde todos os mocinhos vão morrer das formas mais horríveis e bizarras, e, por incrível que pareça, ainda terá gente que irá rir disso! No filme Tropa de Elite, teve muita gente que ria com as torturas. Eis um exemplo do que a falta do mito faz, sem ele, morrer ou matar não é mais heróico ou vilanesco, é rotineiro. Traficante mata dez por dia por que os considerou obstáculos, você mata o outro por que encontrou com sua parceira lhe traindo, você se suicida por que acha que a vida é ruim e o outro lado é melhor… É certo que a cultura japonesa tem o suicídio de forma mais comum que a nossa, pois lá a sociedade era envolta da honra, um samurai era um homem de honra, se a perdesse ia virar um Ronin, o Homem Desonrado, e para eles a honra era indispensável para a paz durante a vida, então realizavam o ritual do senppoku para na outra vida ter honra, por ter reconhecido que a honra nessa vida havia acabado. Entretanto, eles elevavam o suicídio ao nível do sagrado e era parte da cultura, um mito, na nossa o suicídio não é um mito, não é sagrado, só uma opção impulsiva, hoje em dia até há o suicídio como sagrado, mas essas pessoas são discriminadas por isso. Exemplos desses atuais? Homens-bomba que morrem por Alah e os Kamikazes do Japão. Serão eles fanáticos ou heróis?
Sem o mito a sociedade só vem cada vez mais sendo desregularizada e entrando em colapso. A violência aumenta por que o mito do pecado de roubar foi abaixo pelo ceticismo religioso, então se está passando fome, antes matar e roubar do que passar fome em nome de um deus mítico não provado. Matar é comum, mesmo que apenas por diversão. O mito do amor romântico acabou, agora só existe a liberdade sexual e a traição. O mito do bicho papão está caindo e do Papai Noel também, então crianças estão se revoltando contra os pais por que não possuem mais um por que de respeitá-los se não precisam, só são obrigados a tal. A regularização da sociedade está em caos graças ao exagerado pensamento cientifico. Não que ele seja algo que deve ser evitado, não entenda por isso, mas até hoje a sociedade se une por um objetivo mítico, por que o mito mostra o pai como aquele que impõe regras na casa, o idoso como o sábio que deve ser respeitado, o próximo como alguém que se deve ajudar, a mãe como figura sagrada que dá o amor e Papai Noel como o bom velhinho que dá presentes para as boas criancinhas. A sociedade mítica é montada assim, ela foi erguida sem a ciência, e agora com o mito positivo que a ciência é a Verdadeira Verdade e o mito em si deve ser acabado para o ser humano não ser mais “enganado”, será erguida uma nova sociedade coletiva mundial com mitos científicos lógicos, e não mais o da sociedade que estamos, logo uma nova sociedade, completamente diferente nascerá. Portanto querer que a sociedade mítica, que desde a primitividade os povos têm desenvolvido, seja tomada pela ciência com os conceitos antigos intocáveis é algo impossível. O mito é o conceito, sem conceito não haverá mito, mas razão e mito são parasitas entre si, eles nunca são nulos por dependerem um do outro, pois apartir de onde a ciência não alcança o mito passa a assumir, e mesmo que a verdade lógica não desse mais espaço para o mito como explicação, ele existe em sua história como base de inicio e como base de objetivo.
Para finalizar, será mostrado como o mito não é algo primitivo, apenas, mas bem atual também. Como já foi citado como a representação do pai, idoso, mãe e o próximo, o homem possui palavras de ressonância míticas: casa, lar, amor, paz, liberdade, morte, madrinha, tia, filho, trabalho, lazer, cuja definição não esgota os significados subjacentes que ultrapassam os limites da própria subjetividade que o ser humano é capaz de dar às coisas físicas e ideais. São conceitos que remetem a valores arquetípicos, existentes na natureza inconsciente e primitiva de todos nós.
O mesmo ocorre com personalidades que a mídia se incube de transformar em ícones exemplares como artistas, mártires, políticos, esportistas, modelos sexuais e de beleza, ditadores, inimigos da humanidade ou pessoas de autoridade respeitável.E para quem ainda considera os ritos de passagem como primitivos, deveriam parar e pensar numa intersubjetividade entre estes e os rituais secularizados por nossa sociedade: as comemorações de nascimento, casamento, aniversários, os festejos de Ano-Novo, as festas de formatura, debutantes, trote de calouros, ingresso obrigatório no serviço militar, a missa de funeral e o funeral em si (aonde os vivos se despedem do morto). Nós temos mitos sim, o mito do corpo é um dos mais fortes deles, o da existência de vários ou um deus é mais ainda entre muitos em todo o mundo, até a inexistência de Deus é um mito. O mito é amigo, se não irmão, da relatividade, afinal tudo pode ser e não ser, assim como tudo ser é um mito, e não ser também é um mito, e essa própria idéia de oposição é mítica.

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